segunda-feira, 9 de junho de 2014

Copa, Funk e Revolução...

Peço licença para falar de um país...

Um país de natureza exuberante em pleno século 21, de água abundante quando já é rara em outros do mundo, de clima ameno para plantar, viver e conviver. Um país situado no coração do mundo, com quedas de água incríveis geradoras de energia limpa e poderosa. Um país de DNA diversificado como poucos, de mistura genética, cultural, visual. Um país onde religião se respeita, onde templos teoricamente opostos convivem na mesma quadra há décadas. Um país onde eu mesma vejo, há mais de 8 anos, um judeu, um negro e um japonês caminharem todos os dias, em papo animado e verdadeiro, em seu exercício diário.
Um país onde um enorme caldeirão de possibilidades foi criado, onde energias cósmicas poderosas se ancoram, um país para onde muitos pensadores e transformadores foram atraídos... mas que entristece.
Hoje, a dias da Copa do Mundo por aqui, questiono o que acontece com todos nós brasileiros. O que queremos? Para onde vamos? Qual a nossa esperança?
A corrupção desenfreada, a falta de justiça, a burocracia monstruosa. E nós, seguindo, apesar de tudo.
Vivemos em um local de abertura de ideias, de mentes inovadoras e criativas. De muito potencial, mas de muito pouca confiança, infelizmente.
Não há auto-confiança no brasileiro. Somos um povo excessivamente resignado. E isso é nosso calcanhar de Aquiles.
Em todos os  momentos de revolução da nossa história, a camada que despertou foi sempre a do meio, a classe achatada, a classe que trabalha para pagar as extravagâncias da elite e as esmolas dos menos favorecidos. Ela se cansa e grita, mas é pequena, muito pequena, para promover mudanças reais e duradouras na nossa condição.
O Brasil, como qualquer país, tem sua força motriz na classe mais baixa, a dominante em números, esmagada em poder. E aqui, ainda vivemos em pleno clima feudal...
Nossos brasileiros que aceitam o bolsa-família, e vivem de seguro-desemprego, não têm conserto, me desculpem. Eles ainda vivem no sistema falido, onde se assiste ao patrão sair de carro importado e se fica feliz por poder dirigi-lo até a garagem, depois da lavagem semanal. O sistema onde as empregadas domésticas são felizes por assistir a festa de luxo da patroa, ou por ela ser simpática ao descrever os melhores momentos da viagem para a Europa e trazer uma lembrança no final. Onde se fica feliz por nadar no piscinão de Ramos, e assistir aos desfiles das atrizes globais nas praias badaladas do Rio, não percebendo que isso é pura discriminação. Onde se faz milhões em uma Copa com corrupção e ingressos caríssimos, e onde o povo mesmo assistirá tudo pela TV, da mesma forma como seria se a Copa fosse na Europa.
Neste mundo ainda há castas. Um mundo velho que já se vai pelo tempo, um tempo onde se devia lealdade aos seus patrões por gerações a fio, onde havia divisões e tetos para cada classe, e a igualdade simplesmente nunca era mencionada.
A manipulação da elite os faz acreditar que amar seu estado humilhante é orgulho das suas origens. E eles compram a ideia, facilitando tudo para quem os massacra.
Ainda é comum aqui escutar "...pelo menos nunca nos faltou comida..." ou "...o patrão é bom pra mim...". A igualdade aqui é utopia, e na cabeça de poucos, a maioria nunca realmente sequer a imaginou.
Assim, qualquer auxílio é bem vindo. Doar é divino. Ajudar o necessitado.
Aqui ainda se escuta dos pais "Isto não é para nós" ou "Cada um no seu mundo", "Quanto mais alto o sonho, maior o tombo..." e por aí vai. Mas existe apenas UM mundo. O de TODOS.
Uma nação forte não é feita de necessitados bem amados e cuidados. É feita de homens e mulheres de brio e garra, que não querem apenas sobreviver, mas experimentar tudo o que está disponível nesta matéria que chamamos de mundo físico. Tudo. 
Sem limites ou divisões pré-estabelecidas.Temos todos o direito de acertar e errar à nossa maneira, de experimentar tudo, sem cercas ou coações. 
E vendo a realidade que se apresenta no comando destas classes menos favorecidas, sabemos que nada vai mudar por enquanto.Ou, no máximo, muito pouca coisa. 
Mas a renovação vem das novas almas que nascem, com outros objetivos e aspirações.  
Pela primeira vez na história vejo meninos e meninas de classe operária, com história difícil, cantarem "ostentação". Lógico que minha primeira reação (e a segunda, e a terceira...) foi de repúdio. Mas tudo tem motivo...será que não é esta a base da revolução? 
Pessoas de origem humilde não cantando seu orgulho em não ter. Eles não querem um carro popular... querem um Camaro. Eles querem bolsas e sapatos de grife importada, e bebidas caras, como seus ídolos da TV. Querem para si tudo o que o mundo disponibiliza e que exibe aos seus olhos diariamente.
Lógico que esta revolução não poderia ter início em valores morais altos, ou reivindicações culturais. Ou de poder político. Sejamos realistas. Dado o que foi disponibilizado para esta classe há séculos, a única saída para reivindicações seria a igualdade material. É o que sempre aconteceu. É o que eles vêem, é o que precisam, o que sentem que foram lesados, é o que os pais e avós nunca desfrutaram. E o melhor... as ajudas e esmolas governistas não podem pagar...

Um dia, verão que não poderão ter o Camaro apenas cantando, ou ganhando bolsa-alguma-coisa. Precisarão lutar pelo sapato importado. Estarão adultos, ainda humilhados socialmente. Alguns, sim, irão para o crime, infelizmente. Mas acredito que muitos se voltarão contra a elite gananciosa e corrupta. Afinal, ela tem o que é deles por direito!
Será uma estrada muito (mas muito mesmo) tortuosa se formando, mas que pode ser (vejam só!) a nossa saída? Será o funk, finalmente, a NOSSA revolução, iniciada com música duvidosa?
Séculos depois da França, não temos guilhotinas, mas vivemos em feudos, e teremos palácios para invadir. Espero que com votos, e não com força. 

Chega de pão e circo. Cada povo em seu tempo. Que este seja o nosso. Finalmente.




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